Agronegócio

A agrotecnologia desenvolvida por cientistas e agricultores de Israel para driblar a falta de água vira produto de exportação

Do alto de uma colina em Sderot, cidade a 75 quilômetros de Tel Aviv, Moshe Scholnick aponta para uma nuvem cinzenta ao longe: “A Faixa de Gaza é bem ali, a 2,5 quilômetros. Se o céu estivesse limpo, você poderia ver os prédios e os povoados palestinos”.
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Imaginei a tensão nesta área em 2014, quando o Exército de Israel e os militantes do Hamas trocaram mísseis e foguetes durante 50 dias, numa guerra que deixou um saldo trágico – 2.143 palestinos e 70 israelenses mortos, até o cessar-fogo, em agosto.

“Você conhece algum palestino de Gaza?”, pergunto a Moshe. “Teve um tempo em que milhares de palestinos trabalhavam em Israel, boa parte deles na agricultura. Nas festas de aniversário, eles costumavam nos visitar ou nós íamos lá comemorar com as famílias deles. Depois, a guerra se acirrou e a gente se afastou”, ele responde, com o olhar ainda perdido na névoa de Gaza.

Moshe, de 60 anos, é tesoureiro do kibutz Bror Chail, construído por judeus vindos do Egito em 1948, ano da Declaração da Independência de Israel, mas que virou uma espécie de território brasileiro nos anos 70 do século passado, quando recebeu um grande número de imigrantes de São Paulo, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Bahia e outros Estados do Brasil.

Os primeiros kibutzim (o plural de kibutz) surgiram na então Palestina no princípio do século XX e tiveram um papel fundamental para a criação do Estado de Israel, em 1948. Boa parte deles foi construída por judeus do Leste Europeu como comunidades agrícolas autossuficientes, de princípios socialistas. Eles faziam parte do movimento sionista, que defendia a existência de um Estado nacional judaico na Palestina.

O kibutz (que significa grupo, em hebraico) tinha como principal característica o coletivismo. A receita gerada pela produção agrícola era destinada a um fundo comum e todos os seus membros recebiam a mesma “mesada”. Nos primeiros anos, o movimento kibutziano era quase anarquista: tudo era coletivo, todos comiam no refeitório, as decisões eram tomadas em assembleias e as crianças dormiam juntas, separadas dos pais.

Hoje há 273 kibutzim, que representam 2,2% da população do país, e 450 moshavim, assentamentos rurais com entre 60 e 120 famílias de agricultores, que funcionam como pequenas cooperativas. De lá saem cerca de US$ 2,1 bilhões por ano, considerando a produção de leite, aves e ovos, flores, verduras, legumes, frutas, ovinos e grãos.

Guerra e paz

Conheci Moshe, Ogenia e seus dois filhos em maio de 1993, durante uma visita ao Bror Chail. Na época, o Exército israelense ocupava o sul do Líbano, onde combatia os guerrilheiros do Hezbollah. De origem xiita, o grupo islâmico prega a resistência à ocupação israelense e a destruição do “Estado sionista”. Mas o país vivia uma esperança de paz, com o início das conversações entre o primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin, e o líder da Organização da Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, que iriam culminar, meses depois, naquela célebre foto de 13 de setembro de 1993, em que dois inimigos aparentemente constrangidos (Rabin e Arafat) apertavam as mãos no jardim da Casa Branca, em Washington, sob o olhar triunfante do anfitrião Bill Clinton, então presidente dos Estados Unidos.

Moshe Scholnick no pomar de pêssegos do kibutz Bror Chail, próximo a Sderot (Foto: Bruno Blecher/Editora Globo)
O sonho da paz seria enterrado dois anos depois numa praça em Tel Aviv, durante uma grande manifestação pública, com mais de 100 mil pessoas, em prol de um acordo entre Israel e Palestina. Em 4 de novembro de 1995, uma noite de sábado, Rabin foi assassinado por um estudante judeu ortodoxo de extrema-direita, que se opunha às negociações com os palestinos. Dali para a frente, a briga entre judeus e palestinos se acirrou, com uma série de atentados terroristas, de um lado, e retaliações e invasões, de outro.

Em 1993, o movimento kibutziano também estava em pé de guerra, após negociar uma dívida de US$ 4 bilhões com os bancos. A forte crise econômica em Israel nos anos 80 do século passado, que fez a inflação bater na casa dos 400% ao ano, levou os kibutzim a cair na real e perceber que as contas não batiam, ou seja, que seria impossível viver apenas da receita rural, principalmente após o governo ter cortado os subsídios à produção agrícola.

Privatização
Os kibutzim começaram a repensar a sua estrutura, das relações de trabalho ao sistema de poder. O modelo socialista implantado nos anos 1920 estava desgastado e não conseguia mais responder às expectativas da nova geração. Os jovens começaram a trocar o kibutz pela vida nas grandes cidades, devido à falta de perspectivas, como fizeram os dois filhos de Moshe e Ogenia Scholnick: Issar (34) e Sivan (31), que se casaram e hoje vivem e trabalham em Tel Aviv.

A exemplo da maioria dos kibutzim do país, o Bror Chail passou por um processo de privatização a partir dos anos 1980. Hoje, apenas 50 dos 250 kibutzim no país ainda mantêm o sistema coletivista. Para sobreviver aos novos tempos, o Bror Chail fechou o refeitório coletivo, arrendou o asilo, alugou um galpão para uma indústria de pizzas e se transformou numa espécie de condomínio. As casas foram vendidas a seus moradores, outras foram alugadas a famílias da região e mais algumas estão sendo construídas para abrigar 16 famílias novas, com média de idade entre 35 e 40 anos, como forma de rejuvenescer a população do kibutz, que conta hoje com 800 pessoas.

A agropecuária, porém, foi preservada. O kibutz manteve suas 600 vacas israeli-holstein (uma linhagem da raça holandesa, forjada no Oriente Médio), que fornecem 7,8 milhões de litros de leite ao ano, com a excelente média de 13.000 litros por vaca ao ano. O Bror Chail também cria frangos, tem pomares de pêssegos e cítros e plantações de batatas, cenouras e trigo. Mas introduziu algumas inovações no campo: 11 hectares foram arrendados para uma companhia canadense de energia solar para a instalação de placas de células fotovoltaicas, que fornecem uma receita de 500 mil shekels por ano, o equivalente a US$ 130 mil.

“Com uma população de veteranos, não podemos nos dar ao luxo de ser agricultores. Tudo no campo é automatizado, da ordenha à irrigação das lavouras, e apenas três membros do kibutz, com a ajuda de dez empregados, dão conta da fazenda. Se continuássemos com o modelo tradicional, o kibutz viraria um asilo e, depois disso, um cemitério”, diz Moshe.

Alguns kibutzim passaram ao largo da crise, porque conseguiram se renovar a tempo, investindo em atividades bem mais lucrativas do que a produção agrícola. É o caso do Hatzerim, localizado em pleno deserto de Neguev, que se transformou numa multinacional da irrigação. Hoje, o kibutz é mais conhecido por Netafim, companhia líder global em soluções de gotejamento e microirrigação, fundada no kibutz há 50 anos. Com 28 subsidiárias e 16 fábricas espalhadas pelo mundo, inclusive no Brasil, a Netafim tem mais de 4 mil funcionários. Ela pertence ao Permira, grupo de investimento europeu, e aos kibutzim Hatzerim e Magal. Está presente em 110 países e fatura cerca de US$ 650 milhões por ano.

Assim como outras grandes empresas de irrigação de Israel, casos da Plastro e da NaanDan Jain, a Netafim nasceu no campo, a partir da necessidade dos agricultores de desenvolver tecnologias capazes de garantir a produção de alimentos em pleno deserto. Simcha Blass, engenheiro hidráulico polonês, foi quem desenvolveu o primeiro gotejador do mundo. Ele chegou à Palestina em 1920 e logo percebeu que o principal desafio para o desenvolvimento agrícola da região era o abastecimento constante de água.

Durante 30 anos, Blass trabalhou no planejamento e construção do Sistema Nacional de Águas, um projeto financiado pela Agência Judaica que transportou água do Lago Kineret ao Neguev, por meio de um complexo sistema de dutos subterrâneos, canais abertos, reservatórios e túneis.

Na década de 1960, Blass começou a testar seu primeiro gotejador. A peça foi construída para reduzir a pressão da água e diminuir a vazão, de forma a fazer com que a agua chegasse à raiz da planta em forma de gotas. O dispositivo de Blass consistia em um microtubo enrolado ao redor de um tubo de 16 milímetros. A geração de fricção reduzia a pressão da água de 1 bar, em seu ponto de entrada, para quase zero, em sua outra extremidade. Depois de desenvolver a peça, o engenheiro procurou vários kibutzim no Neguev, mas só o Hatzerim se interessou pela invenção.

“Simples e preciso, o gotejamento faz com que a planta receba a água na dose certa diretamente nas raízes. Além de reduzir o consumo de água e energia, esse tipo de irrigação aumenta a produtividade das lavouras. A economia de água é de 60%, se comparada aos outros métodos. Outra vantagem é a possibilidade de associar a irrigação à nutrição das plantas, por meio da fertirrigação. A planta recebe água e adubo ao mesmo tempo”, explica Naty Barak, chefe de sustentabilidade da Netafim.

Água reciclada

Uma escultura verde de 7 metros de altura, em forma de vaso sanitário, recebe o visitante em Igudan, estação que recolhe, transporta e trata o esgoto de cerca de 2,5 milhões de habitantes e de 7 mil indústrias na região metropolitana de Tel Aviv, que abrange 250 quilômetros quadrados no centro de Israel. Outra privada gigante foi instalada na Praça Rabin, no centro de Tel Aviv, dentro de uma campanha para sensibilizar a população dos riscos ambientais e prejuízos causados pelo descarte de lenços umedecidos nos vasos sanitários. Com 60% de seu território no deserto, o país teve de encontrar rapidamente novas fontes de água. Nos anos 1960, o país concluiu as obras do aqueduto que leva água do Mar da Galileia, no norte, até o Neguev, no sul. Mas a população cresceu, e essa fonte ficou sobrecarregada. A partir dos anos 1990, Israel passou a investir em novas alternativas, mais caras e sofisticadas, como a reciclagem e reúso do esgoto e a dessalinização.

Esgoto é coisa séria em Israel. A estação de Igudan trata 370.000 metros cúbicos de águas residuais por dia, quase 40% do esgoto produzido no país. São águas utilizadas em banheiros, cozinhas, máquinas de lavar, indústrias e estabelecimentos comerciais. Todas são tratadas e purificadas para reutilização na agricultura, por meio de processos biológicos. Cerca de 70% da água que irriga as lavouras do deserto do Neguev provém de Igudan. Empresas, universidades e institutos de pesquisa israelenses estão transformando todo o know-how adquirido nos últimos 60 anos em tecnologia de gestão, reciclagem e produção de água em bons negócios. Dessalinização da água do mar, reciclagem do esgoto para a agricultura, softwares de alerta para vazamentos, estufas e microirrigação são os produtos top do extenso catálogo de tecnologias e serviços.

Uma das especialidades de Israel é a dessalinização da água do mar. As cinco usinas do país já produzem 70% da água potável utilizada no país. O processo mais utilizado é a osmose reversa. A água salgada é comprimida através de membranas que permitem a passagem de água e impedem a passagem de sais. A água que passa através das membranas é dessalinizada, enquanto a que permanece na solução forma um concentrado que é devolvido para o mar.

A maior usina em operação no país está localizada em Hadera. A usina foi construída pela IDE Technologies e custou cerca de US$ 500 milhões. O custo da água é de cerca de US$ 0,50 por metro cúbico. A IDE Technologies está construindo uma usina em San Diego, nos EUA. Um investimento de mais de US$ 900 milhões. Quando estiver pronta, em 2016, a megausina americana será capaz de fornecer 50 milhões de litros de água potável por dia.

Fumo do bem
Collplant Holdings, empresa de biotecnologia israelense, conseguiu produzir colágeno, proteína utilizada pela medicina para a reparação de tecidos, a partir de tabaco geneticamente modificado. Atualmente, as únicas fontes disponíveis são porcos, vacas e cadáveres humanos.

“O colágeno geneticamente modificado é mais seguro e vai revolucionar as terapias na área de ortopedia e cicatrização de feridas”, diz Yehiel Tal, CEO da Collplant, uma startup isralense que trabalha em cooperação com a Pfizer e a Edwards Lifesciences Corporation. Segundo ele, o produto pode ser empregado em mais de 1.000 diferentes terapias, inclusive como substituto ósseo, e traz menos risco à saúde do que as fontes tradicionais.

“Basta uma plantação de 250 hectares de tabaco para atender a todo o consumo mundial de produtos ortopédicos à base de colágeno”, acrescenta Tal. Uma das aplicações do colágeno é a produção de gel para acelerar a cicatrização de úlceras em pacientes diabéticos. Juntamente com a Pfizer, a Collplant está desenvolvendo produtos de colágeno para a reparação de fraturas ósseas

Feira mostra inovações em abril

Israel promove em abril, em Tel Aviv, a 19a Agritech, feira internacional de tecnologia agrícola, que vai reunir 196 empresas locais e 57 estrangeiras. São esperados mais de 35 mil visitantes nos três dias de feira, que este ano vai ter como destaque os novos sistemas e estratégias de pós-colheita, armazenamento, processamento e segurança dos alimentos.

O país hoje produz e exporta uma ampla gama de sistemas e acessórios para agricultores de várias partes do mundo, como pulverizadores, miniaspersores, válvulas automáticas, filmes plásticos para estufas, sistemas computadorizados para produção de leite, máquinas e equipamentos para colheita, além de defensivos e fertilizantes.

AGRITECH 2015 – De 28 a 30 de abril, em Tel Aviv. Informações em São Paulo pelo tel. (11) 3095-3111 ou pelo site
agritech.org.il

* O jornalista viajou a convite do Israel Export & International Cooperation Institute
GLOBO RURAL

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