Agronegócio

O OVO DE COLOMBO: O “supermilho” boliviano encanta produtores brasileiros radicados em Capitán Bado, no Paraguai

O ovo de Colombo
Prestes a chegar ao Brasil, o “supermilho” boliviano encanta produtores brasileiros radicados em Capitán Bado, no Paraguai
Ariosto Mesquita
Ampliar foto O ovo de Colombo Semente de milho de origem boliviana promete produtividade até 50% maior do que a média do convencional
Dono de 1,54 mil hectares de terras no norte do Paraguai, onde há 20 anos arrenda outros 1,2 mil hectares, o agricultor Celso Colombo, natural de São Miguel do Oeste, SC, optou em fugir da “burocracia” e da carga de impostos brasileira ao vislumbrar no país vizinho novos horizontes tecnológicos para garantir desempenhos eficientes em suas lavouras (soja verão e milho e trigo em sucessão). Em 2015, ele foi apresentado a uma nova semente de milho, de origem boliviana, que prometia produtividade de 35% a 50% superior à sua, então em 90 sacas/ha. Com um detalhe: a variedade é convencional, não tem nenhum evento transgênico embutido. Mesmo desconfiado, ele resolveu fazer uma experiência. Pagou US$ 200 (pouco mais de R$ 600 pela cotação média da segunda quinzena de março de 2017) por dois sacos (cada um com 60 mil sementes), o suficiente para o plantio de dois hectares dentro dos 800 reservados ao milho segunda safra em 2016.

Quando foi colher, Colombo se assustou. As espigas eram mais “gordas”, com um maior número de linhas de grãos e visivelmente mais “cheias”. No pequeno talhão, a produtividade foi de 141 sacas/ha, 44% superior à média obtida no restante de sua lavoura no ano passado: 98 sacas/ha. O custo de produção foi de 75 sacas/ha, segundo ele, quatro ou cinco sacas superior ao que desembolsou com outras cultivares que utiliza. “A única variável foi o preço da semente, uma vez que minha lavoura toda é cultivada com variedades convencionais. Portanto, o número de aplicações foi o mesmo em toda a área de cultivo: quatro para insetos e uma para dessecação. Não planto o chamado milho Bt, pois esta tecnologia já está perdida, ou seja, teria de usar defensivos da mesma forma e o preço pago pelo Bt não compensa”, conta o agricultor, cujas terras ficam no distrito de Capitán Bado, Departamento de Amambay, a cerca de 15 quilometros da fronteira seca com o Brasil, mais precisamente do município de Coronel Sapucaia, no Mato Grosso do Sul.

Animação total – Celso Colombo recebeu a reportagem da Agro DBO na sede da Fazenda Leopoldina, de 190 hectares, que tem como áreas agregadas 1,1 mil ha arrendados e mais 1,35 mil adquiridos em parceria com o também produtor brasileiro Paulo Marçal. Animado com os números da “semente boliviana”, Colombo plantou 200 hectares com a tecnologia no final de fevereiro de 2017 e espera repetir a produtividade da área de teste. Na experiência de 2016, semeou os dois hectares em 15 de março, uma data relativamente tardia para um milho de ciclo médio (135 dias) dentro da segunda safra (ou safra de inverno). Porém, o que ele viu o deixou bastante animado para este ano. “Gostei muito dos resultados.

A variedade é bem resistente, a qualidade de grão é muito boa e o acamamento quase não existe. Na colheita, o milho saiu com 13% de umidade, já pronto para a indústria. Difícil colher assim neste nível. Estou bastante otimista”. Vizinho de Colombo, o também produtor brasileiro Henrique Terumitsu Suzuki, nascido em Quinta do Sol, no Paraná, viu os resultados da área experimental e também decidiu apostar na “espiga gorda”. Mais contido, semeou a variedade em 80 dos 430 ha que anualmente cultiva com milho segunda safra na Estância Monte Alegre (871 ha), propriedade da família adquirida há quase 50 anos, também em Capitán Bado. Cansado de resultados “decepcionantes” com o cultivo do cereal, decidiu apostar em agricultura de precisão (base de dados em áreas geograficamente referenciadas com automação agrícola para dosagem de fertilizantes e defensivos) e em sementes tecnificadas, desde que não sejam absurdamente caras. “Com a tonelada do milho valendo pouco acima dos US$ 100, não há como pagar US$ 170 em um saco de sementes para semear um hectare. A cultura é muito instável e ainda estamos à mercê do clima na segunda safra”, argumenta, se referindo aos riscos de estresse hídrico e de geadas na região.

Aspectos agronômicos, financeiros, climáticos e estratégicos pesaram negativamente nos recentes ciclos. “Nas últimas safras meu milho não fechou no azul. Ano passado, por exemplo, pequei na comercialização. Segurei parte do milho para vender depois e acabei perdendo muito quando o preço despencou. Foi um erro”, admite. Agrônomo formado em Bandeirantes, no chamado Norte Pioneiro do Paraná, Suzuki elegeu como foco do trabalho “produzir mais, com menor custo e em menor espaço”. Assumidamente cauteloso, “como qualquer japonês”, o produtor nissei evita manifestar grandes expectativas com a nova semente. Mesmo assim, é otimista. “As condições e a experiência do Colombo me levaram a apostar neste material. As espigas são fantásticas e há anos venho plantando milho boliviano, pois lá existe muita umidade, o que faz com que as variedades originárias daquele país venham carregadas de maior sanidade”.

A disseminação da tecnologia teve início em 2015 e já começa a ser utilizada em escala comercial por agricultores de países como Paraguai, Peru, Equador, Colômbia, Argentina (faixa tropical), além da Bolívia. Também está sendo introduzida no Egito, Quênia e no sul dos Estados Unidos. Batizada de Leadgrain (‘grão líder’, na tradução literal do inglês para o português), deve começar a ser comercializada no Brasil (onde já existem campos experimentais) a partir do segundo semestre deste ano para semeadura na segunda safra em 2018. A previsão é de Jean Carlo Landivar Bottega, CEO da Agricomseeds, grupo de pesquisa e desenvolvimento em genética vegetal com sede em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, e que levou 12 anos para desenvolver e ajustar esta semente.

A base logística brasileira de distribuição das variedades carregadas com a tecnologia Leadgrain será Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. “Já temos o registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e nosso objetivo é atender todos os estados produtores, sobretudo Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná”, avisa Bottega. Neste primeiro ano, a previsão de demanda de sementes no Brasil é de 20 mil sacas, o suficiente para o plantio de 20 mil ha. O custo do saco de sementes pode variar em função do frete. Inicialmente, está previsto para girar entre R$ 450 e R$ 550 (base Campo Grande).

De acordo com o executivo, a espiga maior e com ampla cobertura de grãos ocorre em função da codificação “de múltiplos genes projetados para agregar mais do que o dobro dos óvulos na matriz do sabugo, causando a expansão da espiga e acomodando mais fileiras de grãos e em elevada quantidade em cada planta”. No milho híbrido, quando a tecnologia é aplicada em apenas um dos pais, a espiga, de acordo com a empresa, geralmente se apresenta com 20 a 24 linhas de grãos. Quando o componente é usado nos dois elementos geradores (pais) o número de fileiras pode variar de 28 a 32. O grupo boliviano, no entanto, se reserva o direito de não detalhar mais sobre o desenvolvimento do produto. “É um segredo comercial da Agricomseeds e compreende a utilização de características poligênicas complexas para incrementar o rendimento”, resume.

Alta tecnologia no milho – A chegada do “grão líder” segue tendência em alguns dos principais mercados produtores de milho no mundo (incluindo o brasileiro) de descarregar pacotes tecnológicos sobre o cereal para elevar a produtividade, a um custo de produção menor, diminuindo assim os impactos da sua histórica volatilidade nos preços. No Brasil, números indicam que o milho vem respondendo a alguns esforços. De acordo com as séries históricas da Conab entre as safras 2001/2002 e 2014/2015, a produtividade pulou de 47,8 para 89,9 sacas/ha, um salto de 90% em 13 anos. Enquanto isso, a produtividade média da soja neste mesmo período variou de 43 para 50 sacas/ha, ou seja, um avanço de apenas 16,5%. Ao longo desses anos, o milho passou a se utilizar proporcionalmente de menos área para produzir mais. Com isso, os volumes de produção se aproximaram. Na safra 2014/2015, a soja totalizava 96,2 milhões de toneladas em 32,1 milhões de ha cultivados e o milho 84,7 mi/t em 12,3 milhões de ha. Pontualmente, começou-se a especular sobre o volume de produção do milho ultrapassar o da soja no Brasil.

O pesquisador da Embrapa Milho & Sorgo, Lauro José Moreira Guimarães, não acredita que isso seja viável diante de uma realidade de mercado para o país. “A soja tem mais liquidez, maior valor agregado e o preço oscila muito menos, oferecendo, portanto, menor risco ao produtor”, pondera. No entanto, faz uma observação com relação ao desempenho da segunda safra. De acordo com estatísticas da Abimilho – Associação Brasileira das Indústrias do Milho, a até então chamada ‘safrinha’ ultrapassou a safra de milho verão pela primeira vez no ciclo 2011/12 (35,7 mi/t x 35,2 mi/t, respectivamente) e disparou em seguida fechando 2014/15 em 55,2 mi/t contra um total de 30,9 mi/t da primeira safra. “Hoje, a segunda safra do cereal, como sucessão à soja, ocupa ainda um terço da área de plantio da oleaginosa. Caso esta relação suba para dois terços, o milho com certeza passará à frente”, prevê.

Guimarães vem monitorando o fluxo de aporte tecnológico para a cultura do milho e aposta que, no curto prazo, as empresas irão disponibilizar no mercado um número muito grande e variável de cultivares de alta produtividade e de ciclos diferentes: “Veremos materiais superprecoces para regiões mais quentes, com ciclos mais rápidos, permitindo que a planta floresça com 40 dias após plantio e sementes também para climas mais frios, com florescimento em até 80 dias”. Como no Matopiba (que se fortaleceu como fronteira agrícola brasileira nos últimos cinco anos), Guimarães acredita que o milho deve entrar forte em novas frentes como Alagoas, Sergipe e norte da Bahia. Segundo ele, este espaço geográfico tende a ser nova fronteira para uma agricultura mais intensiva em substituição à pecuária. “No entanto, como é uma região de curtos períodos de chuva, exigirá cultivares com alta tolerância ao estresse hídrico”, observa.

Mesmo de longe, o pesquisador vem acompanhando a chegada da tecnologia boliviana que promete plantas com grandes e fartas espigas. “Parece-me bastante interessante. Não me aprofundei, mas entendi como um conjunto de genes atuando na planta ampliando o diâmetro do sabugo, a fileira de grãos e gerando uma superespiga. No Brasil não há nada semelhante. Li alguma coisa parecida desenvolvida em Portugal. No entanto, a empresa tem muitos méritos no processo que parece carregar grande potencial”, opina. Por outro lado, observa que a novidade eventualmente pode exigir alguns ajustes por parte do agricultor: “Dependendo do grau de uniformidade das sementes, podem ser necessárias regulagens diferenciadas na plantadeira e também nas colheitadeiras em função das grandes espigas. Mas nada que a produtividade não possa compensar”.

Perda da tecnologia – Embora otimista quanto ao futuro da tecnologia aplicada ao milho, a Monsanto, maior fornecedora de sementes de milho no Brasil, com 50% do mercado, segundo estimativas (a multinacional não revela os números) não esconde a preocupação com a perda da eficiência de algumas das tecnologias mais recentes. É o caso do milho GM no qual foram introduzidos genes da bactéria Bacillus thuringiensis (milho Bt) para geração de uma toxina contra grupos de insetos. Com ele, o agricultor teria economia na redução do número de aplicações de inseticidas para conter as pragas. No entanto, com o tempo, indivíduos desse grupo alvo ganharam resistência e passaram a sobreviver nas lavouras, obrigando os produtores a retomarem as aplicações de defensivos em patamares anteriores à tecnologia.

“A situação realmente é crítica e estamos focados no estímulo ao produtor para o plantio de áreas de refúgio”, observa o gerente de negócios para milho da Monsanto, Cesar Barros. Ele se refere a uma prática indicada, mas ainda pouco adotada, de se semear 10% da área de milho Bt com híbridos não Bt de porte e ciclo similares como forma de se evitar a seleção de insetos predadores da lavoura principal. O gerente da Monsanto acena com novidades para os próximos três anos: “Teremos lançamentos de novos híbridos de milho. Não podemos estimar a produtividade no campo, mas em áreas de ensaios vem atingindo até 300 sacas/ha na segunda safra. Temos ainda de ajustar as recomendações destas sementes para o plantio comercial”.

O vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho, Glauber Silveira, acredita que, em um prazo máximo de cinco anos, a produção brasileira de milho pode ultrapassar a de soja. “Só ainda não chegamos lá em função de mercado. Havendo maior demanda pelo cereal, podemos produzir mais sem abrir sequer uma nova área agrícola”, garante. Mesmo lamentando a perda da tecnologia Bt “de forma muito rápida”, Silveira entende que existem bons materiais à disposição do agricultor brasileiro, sobretudo híbridos. “Nossa previsão é de que, nesta segunda safra, algumas regiões do Mato Grosso possam fechar com média de 160 sacas/ha. Nas áreas cujo plantio ocorreu fora da janela podemos ter uma média de 100 sacas. Há 10 anos, o sonho era chegar a 80 sacas/ha”, lembra.

*Matéria publicada originalmente na edição 87 da revista Agro DBO.

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